O som Intangível do Contato

20 ECHOES

Location: Blumenau, Santa Catarina, Brazil

Laura Mello
Laura Mello
Brazilian sound artist living in Berlin. www.lauramello.org Intangible Sound of Contact investigates the history of contact between distinct groups of people at the beginning of the 20th century. Following the path of the Blumenau family, it addresses the German presence in Brazil and Turkey during the so-called new colonialism. The project considers listening as a phenomenon that relates artistic experiences to a specific territory.

@intangiblesoundof_contact

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Caminhe pelo centro histórico e ouça uma parte pouco conhecida da história de Blumenau. Recomenda-se o uso de fones de ouvido.

Nesta caminhada você vai ficar sabendo o que acontecia em Blumenau no início do século XX. Neste momento, o assunto que gerava as mais acaloradas discussões na imprensa Blumenauense era o contato entre colonos alemães e os indígenas da região. A caminhada abre a palavra para o povo Laklãnõ-Xokleng. Os autores Laklãnõ-Xokleng João Voia, Samara Vatxun Camlen e Koziklã Sanara Criri Rodrigues nos contam o que seus avós e parentes sempre contaram. Laura Mello recolheu informações de trabalhos científicos e em documentos encontrados em arquivos. E você, o que seus avós lhe contaram?

Criado com @juventudexokleng. Arte gráfica: @jaguatirikapintora. Facilitadores: @dressa_medeiro. Patrocinador: Neustart Kultur, Comissário do Governo Federal para a Cultura e Meios (Alemanha). Instituto Goethe de Istambul (Academia de Cultura Tarabya). Agradecimento: @institutonow, Família Mello, Arquivo Histórico José Felix Ferreira da Silva, Arquivo Político do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. Intangible Sound of Contact é uma série de Audio-Caminhadas que investiga a história do contato entre grupos populacionais distintos no início do Século XX. Tomando como exemplo a família Blumenau, aborda a presença alemã no Brasil e na Turquia durante o chamado neocolonialismo. O projeto considera a escuta como uma ferramenta que conecta as experiências artísticas a um território específico.

Giralda Seyfert afirma que, no início do século XX, uma ideia de raça que indica desigualdade, construída sobre falsas hierarquias entre seres humanos, dominou o pensamento social em muitos lugares, inclusive no Brasil. Nesta época, restavam aos indígenas do Vale do Itajaí apenas duas opções: perder sua vida ou perder sua cultura. Pois mesmo aqueles que, nos jornais da época, criticavam os ataques dos bugreiros às aldeias indígenas, por outro lado, viam ainda assim no indígena um ser inferior, cuja alma e existência poderiam ser „salvas“ pela civilização. As ideias racistas propagadas por estudiosos no início do século XX foram amplamente refutadas pela ciência.

http://lauramello.klingt.org/intangible-sound-of-contact/

Take a walk through the historic center and uncover a lesser-known part of Blumenau's history. We recommend using headphones for the full experience.

During this walk, you will discover what was taking place in Blumenau at the beginning of the 20th century. One of the most contentious topics discussed in the Blumenau press at that time was the interaction between German settlers and the indigenous people of the region. This walk sheds light on the perspectives of the Laklãnõ-Xokleng people. Through the accounts of Laklãnõ-Xokleng authors João Voia, Samara Vatxun Campen, and Koziklã Sanara Criri Rodrigues, we hear the stories passed down by their grandparents and relatives. Laura Mello has gathered information from scientific papers and archival documents.

What about you, what did your grandparents tell you?

Created in collaboration with @juventudexokleng. Graphic art: @jaguatirikapintora. Facilitators: @dressa_medeiro. Sponsor: Neustart Kultur, Federal Government Commissioner for Culture and Media (Germany). Goethe Institute Istanbul (Tarabya Culture Academy). Special thanks to @institutonow, the Mello Family, Historical Archives José Ferreira da Silva, Political Archive of the German Foreign Office.

Intangible Sound of Contact is an audio walk series that explores the history of encounters between different population groups in the early 20th century. Using the Blumenau family as an example, it examines the German presence in Brazil and Turkey during the era of neocolonialism. The project embraces listening as a tool that connects artistic experiences to specific territories.

Giralda Seyfert affirms that at the beginning of the 20th century, the prevalent social thought in many places, including Brazil, was influenced by an idea of race that perpetuated inequality through false hierarchies among human beings. During this time, the indigenous people of Vale do Itajaí faced a stark choice: either lose their lives or lose their culture. Even those who criticized the attacks on Indian villages by "bugreiros" in newspapers of the era still regarded the indigenous people as inferior beings, believing their souls and existence could be "saved" through civilization. The racist ideas propagated by scholars in the early 20th century were largely discredited by science.

http://lauramello.klingt.org/intangible-sound-of-contact/

Intro
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1. O Contato na versão Xokleng-Laklãnõ

Dia 22 de setembro do ano de 1914, os líderes da aldeia, Kóvi Patté e Vomblé Kuzu partiram ao encontro oficial com os homens enviados pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio), episódio que seria chamado, anos depois, de ''pacificação''. - Logo ali mais pra trás, no rio, teve a chamada 'pacificação'. Quando nossos líderes antepassados apertaram a mão do branco. No contato, eles prometeram nos livrar dos bugreiros. No começo era assim, depois não, - disse Antonio Caxias Popó, um dos líderes do nosso povo, que viveu e sentiu as consequências do contato. Ele conta que ao contrário de como se afirma, a palavra e mesmo esse processo, não devem ser entendidos como sinônimo de ‘domesticação’ ou ‘amansamento’. Essa é a versão de homens brancos que não conhecem a história do nosso povo Laklãnõ-Xokleng e pouco sabem sobre a verdadeira história. Sempre dizem que uma história tem dois lados, mas durante anos apenas um lado dessa história foi contada. A história que ouvimos dos nossos avós, a história que meu tio também contou e outros mais velhos também contavam: o verdadeiro sofrimento nunca foi mostrado, a dor de mulheres sendo feitas de escravas sexuais, a dor de ter um filho indesejado vindo de um estupro, a dor de uma criança vendo a sua infância sendo tirada de si, porque pessoas brancas dizem que vieram ''apaziguar'' o nosso povo. Texto e locução de Kóziklã Sanara Criri Rodrigues da Anunciação. Nascida 01/06/2006, cresceu e vive hoje na aldeia Sede, na terra Indígena Laklãnõ. Arte por Juliana Gomes @jaguatirikapintura

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3. Meu avô me contou

Eduardo de Lima Silva Hoerhann foi o primeiro homem branco a ter contato com um indigena, garoto que na época tinha 18 anos. As pessoas conhecem Eduardo pelo seu ''grande feito'' o homem que teve coragem de conviver com os indígenas por quase meio século, fazendo com que os indígenas se ''tranquilizarem'', para que não se defendessem dos ataques dos brancos, mas pouco se sabe sobre a verdadeira história, o lado trágico dessa história. Meu avô trabalhava para o Eduardo, e contava o que ele fazia com os indígenas. Um dia, Eduardo chamou meu avô, e como ele se demorou um pouco, o Eduardo ficou bravo. E quando meu avô estava chegando, o Eduardo mandou ele parar e ficar ali. Então ele fez o meu avô de alvo; começou a dar vários tiros, um tiro acertou a orelha do meu avô, que ficou sem um pedaço dela. Meu avô me contou que o Eduardo disse pra ele: “Eu só fiz isso pra treinar a minha arma nova.” Por isso, hoje, nós não contamos para os nossos alunos que o Eduardo foi um herói, porque ele judiou muitos dos indígenas, massacrou muito os indígenas. Os relatos dos anciãos que viveram naquela época é muito doloroso, ''ficar contra eles ia acabar com a gente'', é uma das frases mais ditas. Essa é a história que nós ouvimos do meu avô, e o que meu tio sempre contou e outros mais velhos contavam e hoje nós também contamos. Texto e locução de Kóziklã Sanara Criri Rodrigues da Anunciação, nascida dia 01/06/2006, cresceu e vive até hoje na aldeia Sede, Terra Indígena Laklãnõ, SC. Gravado por Kóziklã Sanara

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4. Maria Korikrã Gensch

Meu nome é Maria Gensch, mas pode me chamar de Korikrã. Sou indígena Xokleng do Vale do Itajaí, nascida na década de 80 do século 19, falecida em 4 de fevereiro de 1936. Em 1897, quando tinha uns 12 anos, fui raptada com outras crianças pelo Martinho Bugreiro. O sequestro aconteceu ao final de um ataque de bugreiros ao nosso acampamento. Eu e as outras crianças fomos levadas para longe, e assim, perdemos o contato com nossos pais biológicos. Os filhos de indígenas raptados eram primeiro entregues às freiras do Colégio das Irmãs da Divina Providência. Mais tarde, algumas destas crianças eram adotadas por famílias de colonos alemães. E foi assim que eu cheguei à família Gensch. Meu pai adotivo, o médico Hugo Gensch, escreveu e apresentou, em 1908, um trabalho sobre minha educação no Congresso de Americanistas de Viena, na Áustria. Neste trabalho, ele relata que, quando eu já tinha aprendido alemão o suficiente, pude contar para ele e minha mãe a história que antecedeu minha chegada à sua casa. Disse a eles, exemplificando com gestos e sons, que a adoção não tinha sido escolha minha. Disse que, embora me sentisse tratada como uma filha, nunca poderia esquecer o que me aconteceu. Então, eu contei toda a história daquele ataque liderado por Martinho Bugreiro ao nosso acampamento perto de Pouso Redondo. Lembrava dos homens afiando facas, cortando a garganta dos índios. Lembrava do som do sangue borbulhando, dos gritos dos índígenas tentando fugir. Em sonhos, eu revivia estas cenas, mas também reencontrava meus parentes perdidos no ataque. Via minha mãe e ouvia meu irmão Junvegma cantando para mim. Estas eram as lembranças que tinha da minha cultura. Havia sido apanhada e levada amarrada para longe dos meus parentes e dos meus costumes com apenas 12 anos. Eu era muito nova e não tinha ainda consciência sobre o que é a cultura, eu simplesmente fazia parte de uma. Depois de alguns anos longe da minha cultura, na nova família, tinha aprendido vários idiomas, mas esqueci minha língua materna e como era a vida nos acampamentos. A separação física me fez perder completamente o contato afetivo que tinha com meus parentes indígenas. Sei que não fui a única indígena a ser adotada por brancos, mas fui uma das poucas que sobreviveram. Não fui eu quem escreveu este texto. Eu gostava de ler poesia, mas nunca escrevi minha biografia. A autora deste texto acha importante contar esta história, para que fatos violentos como este não se repitam. Texto e locução: Laura Mello Fonte da imagem: acervo - Arquivo Público Histórico de Rio do Sul

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6. Blumenauer Zeitung - Minas de Prata

Blumenauer Zeitung, Quinta-Feira, 12 de janeiro de 1911 O cônsul alemão Otto Rohkohl comunicou hoje a compra das Minas de Prata da Nova Rússia. Para avaliar a qualidade dos minérios e a viabilidade da exploração, o diplomata e também diretor da Empresa de Força Luz de Santa Catarina contratou os serviços de um especialista. Este é nada mais nada menos que o próprio filho do Dr. Blumenau, fundador desta colônia. O engenheiro de minas Pedro Hermann Blumenau, cujo primeiro nome homenageia o último imperador brasileiro, acaba de chegar da Alemanha. Ele esteve visitando as minas no bairro Garcia na última quarta-feira. Seu parecer indica que as jazidas são de considerável volume, e que a exploração em larga escala de chumbo, cobre, zinco, enxofre e prata seria recomendável. Porém, uma outra avaliação ainda mais específica foi encomendada ao Sr. Kerschbauer, recém-chegado da Colônia Alemã do Sudoeste da África. As minas de Prata localizam-se nas cabeceiras do Ribeirão da Prata, afluente do Ribeirão Garcia. Já entre 1870 e 1880, o batedor de mato Frederico Deeke, comandante do grupo responsável pela segurança da Colônia, encontrou neste local vestígios de minérios que pensou serem de prata. Anos depois, em 1896, uma concessão de 3.000 hectares foi requerida e deferida na região, e a Sociedade Cortada & Ci foi fundada por argentinos e espanhóis. O grupo instalou maquinaria e iniciou os trabalhos de exploração, mas o volume de minérios retirados da mina não compensava o investimento. Por este motivo, desistiram da empreitada e venderam as terras ao Sr. Rohkohl.

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7. O impacto da barragem norte

Meu avô e minha avó sempre me contaram como era a terra indígena Laklãnõ-Xokleng antes da barragem. Existiam rios claros e limpos, peixes em abundância e uma terra verde de árvores. Os peixes se viam a olho nu nos rios claros que corriam no meio da nossa comunidade, as casas eram perto dos rios, as crianças brincavam sem medo. Com a construção da barragem, tudo isso mudou, a terra indígena, que tinha todo aquele brilho de natureza, acabou. Acabou com uma construção que nem mesmo os próprios indígenas sabiam que ia ser feita, foram destruídas árvores, escavaram a terra para conseguir pedras, acabando com o Rio que corria por toda região da terra indígena, o transformando em vermelho de barro, os peixes foram contaminados pelo desmatamento causado naquela época. Muitos indígenas buscaram as partes de mais difícil acesso para assim se protegerem das enchentes que aconteciam quando chovia. As enchentes aconteceram depois da barragem ser construída. A maior enchente aconteceu em 19 de junho de 2014, quando houve deslizamento, falta de energia, falta de água potável, e o difícil acesso para o deslocamento e conseguir alimentação. Atualmente não é diferente, para mim, moradora da Aldeia, os impactos negativos trazidos pela construção da barragem obrigaram nós indígenas a nos deslocar para áreas de difícil acesso, e impróprias para as necessidades básicas do nosso povo, como direito à moradia. Nós da comunidade indígena não temos como construir novas casas. O prejuízo da barragem nos levou a fazer nossas casas embaixo da montanha. É preciso deixar claro que a comunidade indígena não é contra a Barragem Norte, pois tem consciência de quantas vidas ela protege no Alto Vale do Itajaí. Mas chama a atenção que outras vidas também precisam ser respeitadas e protegidas, as da Terra Indígena Laklãnõ Xokleng. Texto de Samara Vatxun Camlem, originária da Aldeia Figueira, Terra Indígena Laklãnõ, hoje moradora de Ibirama/SC. Locução: João Voia

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9. Indígenas Na Cidade

Muitos indígenas precisam se deslocar das aldeias para assim trazer o sustento para a sua família. Não se pode mais nem sair de uma aldeia para morar na cidade, porque pela visão dos não indígenas, isso é deixar de ser indígena. Por eu frequentar um mercado, padaria ou farmácia, para eles isso é deixar de viver minha cultura e passar a acreditar que somos sustentados por eles, isso pelo simples fato de estarmos na cidade. Muitas pessoas dizem que um um indígenas, morando na cidade, automaticamente deixa de ser quem é. Os indígenas que moram na cidade estão ali para estudar e trabalhar, e muitas vezes não tem acesso por serem indígenas. Ao contrário dessa visão do não indígena, não vemos as coisas assim. Somos todos parentes: se algum dia um não indígenas vier pedir alguma ajuda em qualquer situação, ajudamos sem questionar ou mesmo esperar algo em troca. Dependemos uns dos outros, conversamos e os recebemos como se fossem um de nós, porque entendemos as necessidade em que a pessoa se encontra, ajudamos porque temos amor uns pelos outros. Somos uma família e só queremos união e paz. O não indígena nos machuca e nós retribuímos com amor, e mostramos assim que acreditamos em um futuro melhor para nossas crianças, adolescentes, jovens e com os nossos mais velhos, nossos anciãos. Texto de Samara Vatxun Camlem, originária da Aldeia Figueira, Terra Indígena Laklãnõ, hoje mora na cidade de Ibirama/SC. Locução de João Voia.

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10. Uma Verdade Escondida

"Essa é a história que nós ouvimos do meu avô, e que meu tio sempre contou e outros mais velhos também contavam." O contato com os indígenas Laklanõ-Xokleng foi uma das piores coisas que poderia ter acontecido para o povo, as mortes, os desastres que aconteceram em suas terras, as invasões, tudo que havia de ruim aconteceu. Os relatos dos anciãos que viveram naquela época é muito doloroso ''ficar contra eles ia acabar com a gente'', essa é uma das frases mais ditas. Naquela época, era muito comum mulheres indígenas serem levadas à força, eram estupradas e em vários casos tinham uma gravidez indesejada, várias crianças eram sequestradas e levadas para fora da aldeia. Um dos casos mais populares é o sequestro da menina Maria Kóziklã, que naquela época, era uma criança, os brancos dizem que isso aconteceu de forma não violenta, mas como sabemos, Kóziklã foi retirada de seus pais à força por Eduardo e seus capangas, raptada de forma violenta. Kóziklã foi levada para fora da aldeia e criada por uma família alemã. Depois de crescida, ela retornou à aldeia, mas totalmente diferente, transformada pela cultura branca. Ela não reconheceu seu povo, conheceu os seus pais biológicos, mas foi proibida de ficar perto ou de ter algum contato com eles. Essa foi uma história que se repetiu durante anos para o povo Laklãnõ que aqui habitava. Essa foi uma das formas que os brancos tentaram dizimar o nosso povo, nossa cultura, mas nós os Laklãnõ, continuamos a resistir. Texto e locução de Kóziklã Sanara Criri Rodrigues da Anunciação, nascida dia 01/06/2006, cresceu mora até hoje na na aldeia Sede, Terra Indígena Laklãnõ, SC.

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