4. Maria Korikrã Gensch

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Meu nome é Maria Gensch, mas pode me chamar de Korikrã. Sou indígena Xokleng do Vale do Itajaí, nascida na década de 80 do século 19, falecida em 4 de fevereiro de 1936. Em 1897, quando tinha uns 12 anos, fui raptada com outras crianças pelo Martinho Bugreiro. O sequestro aconteceu ao final de um ataque de bugreiros ao nosso acampamento. Eu e as outras crianças fomos levadas para longe, e assim, perdemos o contato com nossos pais biológicos. Os filhos de indígenas raptados eram primeiro entregues às freiras do Colégio das Irmãs da Divina Providência. Mais tarde, algumas destas crianças eram adotadas por famílias de colonos alemães. E foi assim que eu cheguei à família Gensch. Meu pai adotivo, o médico Hugo Gensch, escreveu e apresentou, em 1908, um trabalho sobre minha educação no Congresso de Americanistas de Viena, na Áustria. Neste trabalho, ele relata que, quando eu já tinha aprendido alemão o suficiente, pude contar para ele e minha mãe a história que antecedeu minha chegada à sua casa. Disse a eles, exemplificando com gestos e sons, que a adoção não tinha sido escolha minha. Disse que, embora me sentisse tratada como uma filha, nunca poderia esquecer o que me aconteceu. Então, eu contei toda a história daquele ataque liderado por Martinho Bugreiro ao nosso acampamento perto de Pouso Redondo. Lembrava dos homens afiando facas, cortando a garganta dos índios. Lembrava do som do sangue borbulhando, dos gritos dos índígenas tentando fugir. Em sonhos, eu revivia estas cenas, mas também reencontrava meus parentes perdidos no ataque. Via minha mãe e ouvia meu irmão Junvegma cantando para mim. Estas eram as lembranças que tinha da minha cultura. Havia sido apanhada e levada amarrada para longe dos meus parentes e dos meus costumes com apenas 12 anos. Eu era muito nova e não tinha ainda consciência sobre o que é a cultura, eu simplesmente fazia parte de uma. Depois de alguns anos longe da minha cultura, na nova família, tinha aprendido vários idiomas, mas esqueci minha língua materna e como era a vida nos acampamentos. A separação física me fez perder completamente o contato afetivo que tinha com meus parentes indígenas. Sei que não fui a única indígena a ser adotada por brancos, mas fui uma das poucas que sobreviveram. Não fui eu quem escreveu este texto. Eu gostava de ler poesia, mas nunca escrevi minha biografia. A autora deste texto acha importante contar esta história, para que fatos violentos como este não se repitam. Texto e locução: Laura Mello Fonte da imagem: acervo - Arquivo Público Histórico de Rio do Sul


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O som Intangível do Contato

O som Intangível do Contato

Blumenau
@intangible\_sound\_of\_contact (SCROLL DOWN FOR ENGLISH) Caminhe pelo centro histórico e ouça uma parte pouco conhecida da história de Blumenau. Recomenda-se o uso de fones de ouvido. Nesta caminhada você vai ficar sabendo o que acontecia em Blumenau no início do século XX. Neste momento, o assunto que gerava as mais acaloradas discussões na imprensa Blumenauense era o contato entre colonos alemães e os indígenas da região. A caminhada abre a palavra para o povo Laklãnõ-Xokleng. Os autores Laklãnõ-Xokleng João Voia, Samara Vatxun Camlen e Koziklã Sanara Criri Rodrigues nos contam o que seus avós e parentes sempre contaram. Laura Mello recolheu informações de trabalhos científicos e em documentos encontrados em arquivos. E você, o que seus avós lhe contaram? Criado com @juventudexokleng. Arte gráfica: @jaguatirikapintora. Facilitadores: @dressa\_medeiro. Patrocinador: Neustart Kultur, Comissário do Governo Federal para a Cultura e Meios (Alemanha). Instituto Goethe de Istambul (Academia de Cultura Tarabya). Agradecimento: @institutonow, Família Mello, Arquivo Histórico José Felix Ferreira da Silva, Arquivo Político do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. Intangible Sound of Contact é uma série de Audio-Caminhadas que investiga a história do contato entre grupos populacionais distintos no início do Século XX. Tomando como exemplo a família Blumenau, aborda a presença alemã no Brasil e na Turquia durante o chamado neocolonialismo. O projeto considera a escuta como uma ferramenta que conecta as experiências artísticas a um território específico. Giralda Seyfert afirma que, no início do século XX, uma ideia de raça que indica desigualdade, construída sobre falsas hierarquias entre seres humanos, dominou o pensamento social em muitos lugares, inclusive no Brasil. Nesta época, restavam aos indígenas do Vale do Itajaí apenas duas opções: perder sua vida ou perder sua cultura. Pois mesmo aqueles que, nos jornais da época, criticavam os ataques dos bugreiros às aldeias indígenas, por outro lado, viam ainda assim no indígena um ser inferior, cuja alma e existência poderiam ser „salvas“ pela civilização. As ideias racistas propagadas por estudiosos no início do século XX foram amplamente refutadas pela ciência. http://lauramello.klingt.org/intangible-sound-of-contact/ Take a walk through the historic center and uncover a lesser-known part of Blumenau's history. We recommend using headphones for the full experience. During this walk, you will discover what was taking place in Blumenau at the beginning of the 20th century. One of the most contentious topics discussed in the Blumenau press at that time was the interaction between German settlers and the indigenous people of the region. This walk sheds light on the perspectives of the Laklãnõ-Xokleng people. Through the accounts of Laklãnõ-Xokleng authors João Voia, Samara Vatxun Campen, and Koziklã Sanara Criri Rodrigues, we hear the stories passed down by their grandparents and relatives. Laura Mello has gathered information from scientific papers and archival documents. What about you, what did your grandparents tell you? Created in collaboration with @juventudexokleng. Graphic art: @jaguatirikapintora. Facilitators: @dressa\_medeiro. Sponsor: Neustart Kultur, Federal Government Commissioner for Culture and Media (Germany). Goethe Institute Istanbul (Tarabya Culture Academy). Special thanks to @institutonow, the Mello Family, Historical Archives José Ferreira da Silva, Political Archive of the German Foreign Office. Intangible Sound of Contact is an audio walk series that explores the history of encounters between different population groups in the early 20th century. Using the Blumenau family as an example, it examines the German presence in Brazil and Turkey during the era of neocolonialism. The project embraces listening as a tool that connects artistic experiences to specific territories. Giralda Seyfert affirms that at the beginning of the 20th century, the prevalent social thought in many places, including Brazil, was influenced by an idea of race that perpetuated inequality through false hierarchies among human beings. During this time, the indigenous people of Vale do Itajaí faced a stark choice: either lose their lives or lose their culture. Even those who criticized the attacks on Indian villages by "bugreiros" in newspapers of the era still regarded the indigenous people as inferior beings, believing their souls and existence could be "saved" through civilization. The racist ideas propagated by scholars in the early 20th century were largely discredited by science. http://lauramello.klingt.org/intangible-sound-of-contact/
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