O Roteiro Linschoten

12 ECHOES

Location: Angra do Heroísmo, Azores, Portugal

Ursula Bravo
Ursula Bravo

Este percurso, integralmente à beira-mar ou o mais próximo dela possível, de acordo com a carta de Linschoten, subiria do Porto das Pipas até ao Adro Santo, onde se assiste ao naufrágio de uma nau de Malaca, segundo o relato de Linschoten, descendo depois pela Rua do Faleiro até Santo Espírito e ao Pátio da Alfândega; daí, após assinalar Alfândega e Hospital, seguiria pela Rua dos Minhas Terras e Rua da Rocha até à Porta da Prata, acompanhando as embarcações de comércio local, o estaleiro da Prainha e os planos espanhóis de fortificação da cidade. Este roteiro sonoro, baseado no texto original de Linschoten, constitui-se, assim, como uma estratégia de interacção com cidadãos e visitantes, recorrendo a ferramentas digitais contemporâneas e próprias das "cidades inteligentes", que investem em tecnologia para melhorar a gestão autárquica e proporcionar aos seus cidadãos uma melhor qualidade de vida e a sustentabilidade dos espaços, ao mesmo tempo que assume a disponibilização de um recurso para comunicar Angra do Heroísmo e valorizar o papel que desempenhou na História do Mundo, tanto para o turismo como para a população local, integrando-se na categoria dos produtos culturais de interesse turístico.

Primeira narração

Apresentadora Bem-vindos aos Passeios Sonoros Históricos de Angra do Heroísmo! Este passeio vai levá-lo, sob a inspiração de Jan Huygen van Linschoten e da sua obra Itinerario: Descrição da Viagem do Navegante Jan Huygen van Linschoten às Índias OrientaisPortuguesas, desde o Porto das Pipas às Portas da Prata, atravessando, de nascente para poente, a baía de Angra. As ruas que vai atravessar estão perfeitamente representadas no mapa de Angra que Linschoten publicou na sua obra, em 1595, pelo que poderiam ser atravessadas naquela altura por qualquer viajante, e o seu passeio será acompanhado por narrativas históricas e textos retirados ou inspirados naquela obra. Terá uma duração aproximada de 25 minutos, mas pode variar de acordo com as suas preferências e os seus interesses. Como a narrativa está organizada por localização geográfica (utilizando GPS), pode levar o tempo que quiser ou precisar em cada trajecto e em cada local, sem perder nada da narrativa original. Aviso Importante: Ao tomar a decisão de realizar este passeio sonoro, tem de ter presente que os seus autores e os seus patrocinadores não assumem qualquer responsabilidade legal por qualquer prejuízo ou dano, pessoal ou material, que possa surgir desta experiência. Mantenha-se atento ao que o rodeia, espere o inesperado, respeite as regras de trânsito pedonal e redobre a sua atenção. Apresentadora/Funcionário da Alfândega A cidade de Angra nasceu na segunda metade do século XV,com o movimento expansionista da Europa para Ocidente que veio aoriginar a moderna globalização. Aqui se cruzaram as ideias de uma Europa Medieval com as necessidades da modernidade, fazendo...

Linschoten Angra é a aurora do Ocidente, homem de Deus, e disso posso eu falar de certo saber e de experiência feita! Aqui, nesta cidade, refinaram-se práticas antigas e novas se

Apresentadora/Funcionário da Alfândega A cidade de Angra nasceu na segunda metade do século XV,com o movimento expansionista da Europa para Ocidente que veio aoriginar a moderna globalização. Aqui se cruzaram as ideias de uma Europa Medieval com as necessidades da modernidade, fazendo...

Linschoten Angra é a aurora do Ocidente, homem de Deus, e disso posso eu falar de certo saber e de experiência feita! Aqui, nesta cidade, refinaram-se práticas antigas e novas se, para que fossem levadas para Oriente e Ocidente, à medida que o largo Oceano passava de Mar Tenebroso a estrada de encontro entre as gentes de todos os cantos desta Terra. Sou Jan Huygen van Linschoten, viajante e comerciante holandês. Estamos em 1589, e contam-se agora 6 anos desde que me embarquei rumo a Goa. Depois de lá ter estado ao serviço de Sua Ex.ª o Arcebispo, decidi regressar à Europa pelas tristes notícias do passamento de meu pai e irmão, em Enkhuizen, na Holanda. Na minha viagem de regresso, depois de acostar a Santa Helena, em Maio de 1589, a nossa armada fará escala nas Ilhas Terceiras dos Açores. Desta e de outras muitas viagens que passei darei eu conta num Itinerário que preparo, e que me toma o parco tempo que sobra entre cada uma delas, e que publicarei quando o queira a fortuna destes tempos que, por ora, me abandonou, ao porfiar em meterme aqui, nestas ilhas Terceiras, onde tem sobrado tempo para os trabalhos a que me propus, e dos quais quero deixar-vos amostra. Ora oiçam: Na graça de Deus, avistámos as ilhas Floreiras a 22 de Julho deste ano da graça de 1589.

Apresentador Floreiras era, naquele tempo, a designação...

Linschoten Não me interrompa, homem! Então não se saberá que Floreiras são as ilhas das Flores e do Corvo??? “A êste tempo muitos dos nossos, oprimidos pelas longas misérias que tinham suportado e derreados pela fome, por se terem estragado e corrompido quási todos os mantimentos, eram afligidos por várias doenças que lhes infestavam de podridão os olhos, o peito, a boca e as gengivas, pois até, por falta de água doce; eram obrigados a coser o arroz em água do mar, a ponto que foram encontrar catorze mortos, estirados no convés onde jaziam havia três ou quatro dias” Como se fosse isto coisa de somenos, “No mesmo dia à tarde, quando nos aproximávamos das ilhas do Corvo e Flores, avistámos três velas que não nos deram pouco que fazer, pois atacaram a nossa almirante e lançaram-se sobre ela e sobre uma outra nau a tiros de canhão durante um bom espaço de tempo. Eram bergantins ingleses de 30 toneladas, segundo nos pareceu, e os quais nos seguiram pela noite adiante, enquanto pelo luar costeávamos a Ilha do Faial. No outro dia,quando navegávamos por entre a Ilha de S. Jorge que nos ficava à direita e a Graciosa à nossa esquerda, os mesmos bergantins continuavam a perseguir-nos”; (...) “lançaram-se sôbre a nossa nau que estava perto da costa da Ilha de S. Jorge, pretendendo forçar-nos contra ela e fazer-nos encalhar, para o que deram três voltas ao redor de nós, atirando com os mosquetes e artilharia, fazendo-nos mais dano às velas e enxárcia do que propriamente ao navio, contudo nenhum dos nossos se atrevia a mostrar-se, havendo somente barulho e confusão entre todos”

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Tercera narración

“Não foi sem receio que ali nos detivemos pois nos princípios de Agôsto há ordinariamente nestas paragens grandes temporais sem que se tenha abrigo quando o vento está do sul ou de sueste, ficando então as naus em grande perigo, principalmente as das Indias, que são muito grandes e difíceis de manobrar por causa das grandes cargas que trazem”. Apresentadora/ Funcionário da Alfândega Ouça a descrição da tempestade no Adro Santo, com vista sobre o porto. Linschoten E ainda outra vez, homem! Deve guardar antes tamanha atenção para as taxas do Rei, que estão ao seu cuidado! “Na realidade, a 4 de Agosto, levantando-se de noite um vento sul muito forte, as náus sacudidas de uma maneira assombrosa, estiveram em grande perigo de serem lançadas contra a terra e despedaçadas. Para se dar disto notícia foram dados alguns tiros de canhão pedindo socorro, estando a maior parte dos oficiais em terra conforme o mau hábito dos portugueses que não haviam deixado a bordo das naus senão alguns marinheiros e escravos. Imediatamente tocaram todos os sinos e a cidade encheu-se de alarme e de gritos, sendo a tormenta tão violenta que não havia meio dos navios se aproximarem de terra nem de os socorrerem da cidade. A nossa nau Santa Cruz esteve muitas vezes em perigo de ir à costa se Deus disso não a houvesse livrado. A de Malaca, quebrando-se-lhe as amarras e não tendo gente bastante para as concertar nem para deitar a outra âncora, foi lançada contra os calhaus, depois de lhe terem abatido com grande esforço a mastreação, afundando-se até lhe chegar a água acima do convés. Então, como se a cólera do mar se acalmasse, saltou o ventoao noroeste e a tempestade começou a abrandar. Sem esta mudança tôdas as outras naus teriam sorte semelhante, tendo-se já resolvido cortar os mastros e as enxárcias para salvar os homens.” Apresentadora/ Funcionário da Alfândega Pode continuar agora o seu passeio, descendo, pela Rua do Faleiro, em direcção à Rua de Santo Espírito e ao Pátio daAlfândega. Linschoten E continua o homem! ... Como vai agora à casa da Alfândega, pode ser que por lá fique...

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Quarta narração

“Neste naufrágio da nau de Malaca perderam-se muito valiosas mercadorias pois era a mais rica de tôdas as naus, e trazia da China, das Malucas e doutras ilhas, muitas preciosidades, tais como sêdas, damascos, objectos de oiro e de prata, porcelanas e outras coisas de valor, cujos fardos andavam à tona de água e vinham dar à costa, recolhendo-se ainda alguns, bem como alguma quantidade de pimenta, cravo e noz moscada. Mas a maior parte das mercadorias perderam-se e as que ficaram estavam mais da metade estragadas. Êstes despojos foram levados para a Alfândega, que é o logar dos impostos do rei, afim de que não deixassem de pagar a sua taxa, não havendo nenhuma consideração pela condição miserável daqueles que, depois de fadigas incríveis é da miséria extrema da sua viagem de três anos, tinham sofrido uma tão grande perda com o naufrágio desta nau.” Comerciante do Galeão de Malaca Jan Huyghen, como te achas de feitor da pimenta da Santa Cruz, seria do meu agrado dispor da tua ajuda para retirar da Alfândega os salvados da Malaca, depois que te aches livre dos teus afazeres naquela dita nau. Linschoten Parece que os infortunados sucessos da Malaca prolongarão a minha estada nesta ilha mais do que esperava. Os oficiais régios da Alfândega “nem sequer se contentaram com a caução que essa pobre gente queria prestar, prometendo equipar caravelas e dar boa fiança, para transportarem as mercadorias para a casa dos impostos do rei, em Lisboa, a seu próprio risco: nada quiseram ouvir aqueles cruéis oficiais. Por fim, cedendo aos rogos aturados dos donos da pimenta, concederam-lhes que carregassem as suas mercadorias em alguns navios e que as transportassem a Lisboa, para a Casa da índia, depois de as terem retidas dois anos e meio neste lugar com grande miséria e desespêro. Para conseguir o despacho pronto destas harpias é preciso dar-lhes grandes presentes, de outro modo far-vos-hão esperar três ou quatro meses antes de regularem contas convosco. E se há qualquer coisa de estimação nas naus, é para êles. É verdade que prometem pagar, mas fazem o que querem e não há meio de alcançar justiça contra êles.” (Pausa na narração) Linschoten Aqui, nesta posição estratégica sobre o porto da cidade e no controlo das actividades mercantis, junto à Porta do Mar, está localizado o edifício da Alfândega e o seu pátio.

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Sexta narração

Este porto de Angra, abrigo das naus e galeões das grandes travessias do oceano, também serve às ilhas e ao reino de Portugal, como abrigo e muitos e desvairados barcos, da terra do bacalhau, da pesca das ilhas e do comércio delas, assim como passagem da Armada das Ilhas, que por muitos anos, protegeu as armadas do Reino de Portugal que regressavam das Índias. Estes mercadores locais poderão, sobre isso, dar-nos informes preciosos.

Comerciante da Ilha O nosso comércio assenta na exportação de trigo e pastel para os mercados do Reino e de além-mar, agora integrado na Coroa Espanhola, e do norte da Europa. É que as ilhas produzem grande fartura destes géneros, de que são carentes o reino, o império e a Flandres. Em troca, recebe a ilha produtos básicos como o sal e o azeite, que não se produzem por cá. Recebemos também coisas diversas como tecidos de lã, ferro, chumbo, vidros e cerâmicas, e sabões. Tudo isto nos chega do Reino, mas também do norte da Europa ou mesmo do Mediterrâneo.

Comerciante do Pico E também chegam a este porto as rotas das ilhas, para a circulação de produtos agrícolas e de outras coisas de que a ilha carece, como a madeira que eu trago do Pico, para a construção naval, os móveis e as alfaias da terra, ou o barro de Santa Maria.

Linschoten Este estaleiro de construção e reparação naval é coisa de monta nestes tempos. As reparações têm de ser efectuadas durante o bom tempo da Primavera e do Verão, época em que as frotas mercantes e a armada cruzam estes mares. No Inverno, são difíceis estas obras com mar rijo na baía. É nessa época que o Porto das Pipas há-de servir de abrigo às embarcações, pela protecção que lhes dá nas intempéries.

Linschoten Vamos agora até às Portas da Prata – ou Porta do Portinho Novo – que está no fim da baía de Angra do século XVI.

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Sétima narração

Depois da anexação definitiva da Ilha à coroa espanhola, em 1583, Filipe I decidiu reforçar todas as defesas da costa; mas quis também contruir uma imponente fortificação neste Monte do Brasil para assim defender os dois fundeadouros, este de Angra e o da Baía do Fanal, do outro lado deste Monte do Brasil. “Sôbre os montes chamados do Brasil há duas altas colunas, donde o homem que está de vigia dá sinal dos navios que vê vir tanto do lado do oriente como do ocidente, pondo uma bandeira sôbre a coluna que está do lado do ocidente, quando vê navios que vem dos lados do Brasil, da Guiné, de Cabo Verde e de outros lugares da parte ocidental e austral; colocando-a sôbre a coluna oriental, quando os navios vem do lado de Portugal e de outros lugares da parte oriental e setentrional. Quando êles excedem o número de cinco, dá a conhecer isso içando uma bandeira maior que a usual e por som de trombeta. As colunas vêem-se muito facilmente da cidade por causa da sua altura. Por este modo nada de novo se descobre no mar sem que toda a ilha seja disso advertida. Há guardas e sentinelas colocadas sobre tôdas as montanhas da ilha que olham para o mar, a-fim-de que o governador e os capitães sejam avisados a tempo de se pôrem em prevenção. No sopé da dita montanha há um castelo” (o forte de Santo António) em face do Castelo de São Sebastião, os quais servem para a defesa do pôrto onde nenhum navio entra sem licença” Quando se aprontar esta fortaleza do dito Monte do Brasil, a baía de Angra será totalmente inexpugnável a ataques de piratas e corsários e bem assim das nações inimigas, que cobiçam as riquezas que por aqui passam. O Porto Novo não é um porto de direito, mas um pequeno areal que permite o embarque e desembarque de pessoas e mercadorias com destino a este novo e grande castelo, por lhe ficar mais perto. Havendo disso necessidade, podem guardar-se as mercadorias e riquezas no castelo enquanto as naus permanecem na baía. Não se pode negar que esta ilha da Terceira, e a cidade de Angra por mor razão, nestes tempos em que aqui me acho, se converteu no principal lugar de grandeza destas ilhas, pelas riquezas que aqui passam e pelos soldados que as defendem, achando-se assim por cabeça destas ilhas. É destas muitas coisas que fazem de Angra a aurora do Ocidente que mandei fazer carta desta nobre cidade para o meu Itinerário, em cuja publicação faço fé para breve, assim a fortuna me queira conceder esse desejo, e que podereis ter em vossas mãos, se assim o desejardes.

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Quinta narração

Esta Porta está à guarda do Terço espanhol, de Juan de Urbina, que controla entradas e saídas e determina o encerramento das portas.

Juan de Urbina Den la orden de cerrar las puertas, que se hace de noche!

Guarda do Terço Espanhol Nuestra función es la de controlar las entradas y salidas de personas y mercancías, ya sea del mar a la ciudad, como de la ciudad para el mar. Durante la noche, vigilamos y garantizamos la seguridad de esta zona de la ciudad. (A nossa função é a de controlar entradas e saídas, de pessoas e mercadorias,seja do mar para a cidade como da cidade para o mar. E, pela noite, vigiamos e garantimos a segurança desta zona da cidade.)

Linschoten A prioridade dos oficiais aqui na Alfândega, é garantir o registo e controlo de tudo o que entre e sai do porto, importações e exportações. O controlo é tão certo e tão cuidado que, ainda que não se descarreguem as mercadorias, há sempre uma taxa a pagar, que recolhemos a bordo. E de todas as que se descarregam no porto, a descarga há de ser feita aqui, no cais da cidade, para que o possamos controlar. Pertencem-lhe também os armazéns onde se arrecadam as taxas e se põe a salvo as mercadorias das naus da Armada que carecem de guarida, por naufrágios ou reparações das naus que os carregam. Para isso, a Alfândega tem sempre um escriba e um recebedor de serviço. E é ainda neste Pátio que se adjudicam todas as mercadorias que saem em leilão, como os salvados de naufrágios que ocorrem no porto. E foi por ele que passou Dom Vasco da Gama, há noventa anos, na volta da Índia, quando aqui veio em má hora, pelo mal do irmão, que aqui lhe faleceu, Dom Paulo da Gama. E agora, deixando o mar pelas costas, continuamos o nosso percurso pela Rua dos Minhas Terras para seguir pela Rua da Rocha até à Porta do Portinho Novo. É a primeira rua à esquerda, ficando a Misericórdia à nossa direita, o hospital onde se tratam os doentes que chegam do mar. Neste caminho, e depois de passar a Rua dos Minhas Terras, podemos ver, à esquerda, o estaleiro da Prainha. A sua importância é essencial para um porto no meio do Atlântico. Depois de largas travessias pelo mar oceano, as naus – como aquela em que aqui aportei – chegam em muito mau estado, por via do mar, das tormentas ou de ataques piratas. E também há mister de construir novas embarcações, de todas as formas e para vários serviços.

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Segunda narração

Apresentadora Pode começar, a partir de agora, o seu passeio, subindo em direcção à Rua do Faleiro.

Linschoten Ó homem tenaz e persistente, já lhe pedi que não interrompa a experiência feita nestes mares! À parte: Homem de Deus não é, há-de ser da Alfândega, onde se encontra a mesma tenacidade em espoliar cada um em nome do Rei! Para que não fosse pior, ao redor da Terceira navegavam ainda outras naus inglesas e não houvéramos notícia de caravelas portuguesas que nos trouxessem informes da ilha. Gerava-se assim uma desconfiança das gentes da ilha, que temiam fôramos nós outros ingleses também. Quando, por graça de Deus, saíram duas caravelas da ilha para apercebimento das naus que vinham, os bergantins ingleses deram-se ao mesmo, acercando-se das nossas velas e fingindo amizade. Mas a nossa frota utilizou a artilharia para que nos conhecessem e, por fim, desfez-se a perseguição dos bergantins ingleses. Os insulanos estão em armas, por razão desse pirata bretão Drake, que, segundo novas de Lisboa, vem a atacar a ilha. El-Rei mandou que nos metêssemos na ilha até nova ordem, porquanto não entende segura a viagem até Lisboa. Nesta ilha, o mar é aberto e os perigos são muitos... Não é deconfiança a estadia nestas águas, alertam uns, contra outros que queriam porfiar na viagem. Mas também correm novas de Cumberland que, com mui numerosas naus, estará nos mares que havemos de cruzar até Lisboa. A vontade real obriga-nos a permanecer. “Por isso a 24 de julho, dia de Sant’Iago, as nossas naus, em número de seis (cinco vindas da Índia e uma de Malaca), deitaram ferro na baía de Angra”, no Porto das Pipas, sob a protecção do Castelo de São Sebastião, e para Lisboa seguiram as novas da nossa ancoragem.

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